domingo, 6 de setembro de 2015

Convergência

Nós não nascemos livres, nascemos assujeitados, todavia, em todo nascimento há a possibilidade da criação de um novo contexto e nisso reside a aventura da liberdade humana como tarefa (esta asserção faz convergir Marx, Nietzsche, Foucault e Hannah Arendt).

Violência natural?

A ideia de que há uma "natureza humana" já é muito discutível e ainda por cima de que ela seria "violenta" é sem base nenhuma. A violência é uma trajetória de aprendizagem. Agressividade humana não é violência. Violência é o ato de nomeação. A base biológica do humano é o amor, segundo as neurociências.

A força do socius

É impressionante como o grupo social a que se pertence exerce um poder sobre seus membros. Às vezes, as pessoas começam a interagir espontaneamente com outras pessoas de fora de seu grupo, a comunicação vai fluindo bem, numa troca legal, interessante, quando, de repente, por inveja, algum membro do grupo de pertencimento dá uma chamada, uma chamada à ordem, ameaçando quem está trocando com o fora, e, quase sempre, as pessoas, com medo de serem retaliadas pelo próprio grupo a que pertencem, resolvem obedecer ao chamado e param de interagir espontaneamente com pessoas de fora. Isto é a origem de todas as guerras! E é só o que acontece, inclusive por aqui. Por isso que o Lévi-Strauss dizia que o antropólogo é uma traidor do próprio grupo, abandona o centro de poder do seu grupo, dirigindo-se para o fora.

A conversação e o devir-humano.

A conversação é o fundamento do devir humano, quando um animal humano se nega a entabular uma conversa com outro animal humano, este ato de negação da conversa é um ato de negação do devir humano. Qualquer ato humano está baseado na emoção, no agir emotivo, emocional, e a emoção é o que carrega o juízo de valor, de modo que as conversações são coordenações entre ações e sentimentos. (nota de leitura, estudando sobre a linguagem humana com Maturana)."El que el amor sea la emoción que funda en el origen de lo humano el goce del conversar que nos caracteriza, hace que tanto nuestro bienestar como nuestro sufrimento dependan de nuestro conversar, y se originen y terminen en él" (Maturana). A linguagem mais antiga dos hominídeos é a linguagem dos sinais. Chimpanzés e gorilas podem se comunicar entre si e com os humanos da espécie homo sapiens sapiens, usando-a, tomando-a como base geral para as trocas de signos. Há três milhões e meio de anos, surge uma nova configuração da situação humana ancestral, trazendo importantes transformações para o sistema de linhagem herdado pelo homo sapiens sapiens até hoje. A origem de uma nova linguagem sobreposta e independente da linguagem de sinais, uma linguagem simbólica, lançará as bases de um novo modo de viver dos humanos, baseado nas seguintes características: a) o ato de coletar, juntando coisas do mesmo tipo; b) o compartilhamento do alimento; c) a cooperação entre animais humanos machos e fêmeas; d) a criação coletiva das crianças a partir do cuidado sob a responsabilidade compartilhada do grupo; e) a sexualidade passa a ser vivenciada como uma sensualidade, o que envolve a descoberta do encontro sexual frontal como fonte de prazer e reconhecimento; f) a vida cotidiana em pequenos grupos com adultos, jovens e crianças, interagindo juntos; g) o ato de conversar, que nasce do entrecruzamento do uso da linguagem e da capacidade de sentir emoções. "Lo que diferencia al linaje homínido de otros linajes de primates es un modo de vida en el que compartir alimentos, con todo lo que esto implica de cercanía, aceptación mutua y coordinaciones de acciones en el pasarse cosas de unos a otros, juega un rol central. Es el modo de vida homínido lo que hace posible el lenguaje, y es el amor, como la emoción que constituye el espacio de acciones en que se da el modo de vivir homínido, la emoción central en la historia evolutiva que nos da origen. El que esto es así, es aparente en el hecho que la mayor parte de las enfermedades humanas, somáticas y psíquicas, pertenencen al ámbito de interferencias con el amo" (Maturana).

Poder comer

Elias Canetti discute a relação entre comer e poder. O mais comer é uma função do mais poder e vice-versa. "Tudo o que se come é objeto do poder". Desejar tornar-se o comedor-mor conecta o processo de digestão ao exercício do poder. O que se esquece, frequentemente, é a sobra, o fedor do lixo e do excremento que se deixa por aí. O desperdício é malcheiroso. A fedentina é a marca inexorável de quem se quer na posição "superior". Uma superioridade da inferioridade. E no caso dos mandados, o excremento é repleto de suas culpas. Adoro o livro Massa e poder, quem não o leu, recomendo-o fortemente. Para meus orientandos e minhas orientandas, não precisa nem dizer que é obrigatório, né? Abraços e um bom sábado de liberdade humana, essa danada, danação de nada.

sábado, 25 de julho de 2015

Vontade de saber

O pensamento crítico é uma paixão. É preciso amor pelo pensamento para realizar discursos críticos livres. Há trabalho do desejo na busca por uma verdade. A escrita é uma prática do eu, contudo, a escrita de si é a negação do narcisismo, pois a escrita de si é a relação com o estranho, uma relação com as formas absolutas e relativas da alteridade, é no campo do Outro, é no Outrem, onde mora, quase na impossibilidade, a inscrição da nossa condição de sujeito na individualidade. O que me interessa é pensar de outra maneira, na relação com o estranho, filosofando no contramovimento e operando com procedimentos de inversão. Uma filosofia crítica como problematização daquilo que nos limita e nos capacita. Até onde podemos e somos capazes, esta é a questão. Precisamos experimentar novas formas de dar conta da própria vida. Novas éticas. Outras morais, morais possíveis. E o discurso crítico livre é fundamental para essa invenção. O discurso livre é a condição da ética. E o discurso livre não precisa ser autorizado pela lei.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

A vida integrada pela prisão.

Falar que a vida hoje é uma prisão é mais do que uma metáfora. A lógica de funcionamento da vida social contemporânea é prisional. O desejo difuso de que o encarceramento em massa de "elementos" (categorias de pessoas indesejáveis) que não se encaixam na lógica concentracionária da gestão de espaços de capitalização segundo o programa da oferta liberal, que exige adesão subjetiva ao fazer tudo em condição de precariedade, trocando subserviência por alguma segurança e gratificação que amorteça o risco da queda numa situação de pobreza "atrasada", diferente da pobreza gratificada com fantasias de grupo, como o da "nova classe média", o que tem gerado um efeito de transferência do tipo: "se eu vivo numa lógica concentracionária, os "elementos" saqueadores precisam ser tirados de circulação, simplesmente, precisam ser punidos e punidos". Há um desejo de punição infinita do saqueador (ladrão, assaltante, latrocida), mas há também a estratégia de enxugamento de categorias de pessoas sobrantes, como é o caso do indivíduo jovem atuando no mercado das drogas ilícitas, como fonte de renda mínima para acompanhar o fenômeno desejante da pobreza integrada. O encarceramento massivo não apenas dos saqueadores, mas, principalmente, dos vendedores de drogas, funciona como uma política de gestão de espaços coletivos, afinal, a intervenção na dinâmica do mercado ilícito das drogas, retirando ou injetando mão de obra, possui efeitos sobre os preços de todas as mercadorias envolvidas, incluindo os próprios vendedores das drogas. Há uma percepção social muito difusa de que há grande quantidade de pessoas descartáveis e que o emprego útil para essas pessoas é ser audiência, clientela e usuário de condomínios prisionais privados, que possam gerar lucros, a única maneira de fazer o "elemento" descartável ser produtivo, tornando-se insumo para o sistema prisional empresarial, gerando com isso um efeito de ordem pela retirada de circulação de uma massa indesejada de pessoas, que causam ruídos na vias de comunicação e acesso dos condomínios.