Sociologia e Antropologia. Trabalho de campo e etnografia. Teoria social clássica e contemporânea. Blog acadêmico de Leonardo Sá. Professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV-UFC).
segunda-feira, 13 de junho de 2016
Conversação com forma de pesquisa
É importante a gente estar atento para o que a gente não quer ouvir. Pessoas que estão em silêncio. Ir lá falar com elas. Não gerar viés, escolhendo apenas quem possui disposição para falar. Muita gente não fala publicamente. E as minorias fazem barulho, diferentemente do que a gente chama de maioria silenciosa. Uma questão de método. Tenta conversar com essa maioria silenciosa. Conversar com pessoas que estão caladas. Puxar conversa com elas, escutar o que elas tem a dizer, sem prejulgar. Não deixar a corporalidade do pesquisador dar entender que não concorda com o que elas estão a dizer. Caso contrário, elas vão se calar ou concordar com ele.
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Um dos trechos favoritos de Bourdieu
Pessoas que ocupam posições dominantes tendem a relatar sem parar suas teodiceias de felicidade. Relatam, relatam e relatam o fantasma do dominante. Não param de exibir sua felicidade de dominante, pois desejam não apenas ser felizes, mas dizer que possuem esse direito, esse mérito, em detrimento dos pobres infelizes que merecem ser uns desgraçados. (Leitura livre de uma das principais ideias de Max Weber, trecho sempre citado por Bourdieu).
quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
Entre modas...
Sinceramente, nesses tempos de modismo em torno da virada ontológica na antropologia, a qual nutro forte simpatia, meu espírito antipático me direciona para um retorno à problemática da linguagem na conexão com o campo social, ou seja, uma reflexão sobre a história da problematização que pensa a mediação entre o simbólico e o social. Retorno ao modismo anterior, uma regressão, minha forma de infantilismo e de cultivo velado do primitivismo modernista na sua versão surrealista ou expressionista.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Problematizações ou entidades? O que é objeto?
Aprendi com Foucault a pensar o circuito polícia-justiça-prisão e fico muito desconfiando das super-especializações que estão surgindo, criando "estudos policiais", "estudos de justiça criminal" e "estudos prisionais", como nichos acadêmicos estanques uns em relação aos outros. Acho estranha essa separação contraproducente. Rua, bairro, favela, condomínio, shopping, lazer, consumo, crime, polícia, justiça, prisão, do ponto de vista do meu trabalho de campo, são inseparáveis em seu funcionamento. O lance é a problematização e não as entidades transformadas em objetos. Pensando sobre isso nos últimos tempos.
quinta-feira, 10 de setembro de 2015
Um trecho de um trabalho de 2001.
Mas, por que buscar clarificar a questão do poder em termos metodológicos e não “puramente” teóricos? De um lado, é preciso ter em mente que, ao longo de uma investigação científica, como afirmava Wittgenstein (1996):
fazemos muitas afirmações cujo papel na investigação não compreendemos. Pois nem tudo o que dizemos serve um propósito consciente (...). Os nossos pensamentos seguem rotinas estabelecidas, passamos automaticamente de um pensamento ao outro de acordo com técnicas que aprendemos. E chega então a altura de passar em revista o que dissemos. Fizemos uma série de movimentos que não favorecem o nosso objetivo ou que até o dificultam e agora temos de clarificar filosoficamente os nossos processos de pensamento ( p.97).
É neste sentido que afirmo a dimensão metodológica desta reflexão e não no sentido de uma suposta separação entre teoria e prática. “A capacidade de levantar problemas (...) constitui uma das maiores virtudes do cientista (Malinowski, 1978, p.22). Portanto, aproveito a ocasião para tentar dar um passo no processo de construção de um objeto de pesquisa, cujo background etnográfico não será aqui explicitado, mas sempre pressuposto. A construção do objeto “é um trabalho de grande fôlego, que se realiza pouco a pouco, por retoques sucessivos, por toda uma série de correções, de emendas, sugeridos por o que se chama o ofício, quer dizer, esse conjunto de princípios práticos que orientam as opções ao mesmo tempo minúsculas e decisivas” (Bourdieu, 1998, p.27).
Coisas emaranhadas de poder na vida acadêmica.
Acho muito exagerado certos cultos de personalidade que vão sendo criados por grupos corporados no mundo acadêmico para exaltar figuras como se fossem deuses. A gente sabe que há profissionais no mundo acadêmico que são super brilhantes, mas que recusaram ser objeto desse tipo de adoração. Fazer igreja na academia é um tanto despropositado, não? Os grupos corporados atuando no mundo acadêmico estão exercendo um controle tão fechado sobre o conjunto de referências que são capazes ou permitem manusear na feitura de seus próprios trabalhos que vão morrer por excesso de endogenia. Os novos quadros de alguns desses grupos sequer usam referências que são históricas nas ciências sociais, pois só leem seus orientadores e os dois ou três aliados minguados que eles possuem, e olhe lá se leem isso tudo. As panelinhas em suas socialidades de evitação estão gerando uma fragmentação do saber em compartimentos estanques que não se comunicam. É por isso que celebro estar fora de centros, o desejo de centro é muito ruinoso. Premia na medida em que tolhe! Estar por fora é bem melhor. (Observação: estou escrevendo isso enquanto faço dois pareceres, daí a pontuação). Os indivíduos, produzindo no campo acadêmico, precisam parar de excluir autores pelo fato de não estarem no campo de suas simpatias pessoais ou no arco de suas alianças de poder com que buscam se apropriar do campo institucional. Passou do limite, sinceramente. Temos que saber usar os bons textos dos nossos piores desafetos. Sem essa capacidade de objetivação, o campo se desrealiza. Estou acompanhando casos em que alguém escreveu um artigo e usou uma referência, citando-a como principal, e em outro artigo, que era continuidade do primeiro, a referência caiu, foi suprimida. Fui atrás para saber o que tinha acontecido e alguém me diz: eles brigaram. Que ridículo!
Dicas descontraídas para a vida acadêmica.
Dica para a vida acadêmica: os pesquisadores possuem estilos diferentes, ainda bem. Não confunda o estilo com a verdade, ninguém possui a verdade do caminho a ser seguido. Não sugira para seu orientador que, ao conversar com o professor tal, ele disse que era melhor fazer assim ou assado e não do jeito que o estilo do orientador sugeriu, exceto se o professor que deu a dica estiver na banca de qualificação, aí está convidado e autorizado a intervir. Gente, é melhor mudar de orientador, né, quando alguém não simpatiza ou não confia no estilo de fazer pesquisa do orientador? Simples assim. Muda de orientação. Dica para a vida acadêmica: diante de um orientador de difícil acesso, não fique assediando informalmente outros professores, pedindo orientação informal como forma de compensar o orientador supostamente ausente ou efetivamente ausente. E pior: depois de sugar milhões de dicas do "orientador" informal, não chamá-lo para a banca de qualificação, nem de defesa, e ainda por cima não mencioná-lo nem nos agradecimentos do trabalho final, aí é de lascar o cano, né? Dica para a vida acadêmica: não vá, ao fazer a entrevista de um processo seletivo para a pós-graduação e ao ser perguntado sobre a escolha do programa, dizer que ia tentar fazer não sei onde mas a vida lá está muito cara. Pelo amor de Deus! Minta, diga que ali é o melhor lugar para você desenvolver sua formação. É o mesmo que enviar um convite para alguém dizendo: é que tentei com várias pessoas e não consegui, aí estou entrando em contato com você. Dica para a vida acadêmica: não chegue na sua qualificação com um texto onde você não dialoga com nada, nadica de nada, da produção do seu orientador. Como é que você vai ser orientando de alguém sem dialogar com a produção e o estilo de conhecimento do orientador? A gente que tem que dar essa bronca na qualificação. Evitem isso. Se escolheu ser orientado por alguém, faça o convite logo dizendo que leu a tese da pessoa. Temos que fazer o serviço direito, gente! Dica para a vida acadêmica: não deixe se levar pela ansiedade, não convide alguém para sua banca sem antes ter falado com seu orientador. Na maioria dos casos, o orientador vai vetar. E você que já formulou o convite terá de se fazer de doido, todavia, ninguém esquece ter sido convidado e desconvidado silenciosamente. É um erro estratégico grave fazer isso. Segurar a ansiedade é melhor. Dica para a vida acadêmica: não envie emails para três professores ao mesmo tempo, o mesmo email, perguntando: quem de vocês pode me orientar? Não façam isso, pelo amor de Deus. É mesmo que pedir para ser enterrado vivo. Mais atenção no serviço. Orientador não é sabonete na prateleira do supermercado, orientador também é gente.
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