Sociologia e Antropologia. Trabalho de campo e etnografia. Teoria social clássica e contemporânea. Blog acadêmico de Leonardo Sá. Professor do Departamento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV-UFC).
segunda-feira, 25 de março de 2013
Contra o fetichismo da globalização.
Nos jogos de escala, a etnografia busca descrever relações sociais com uma visão de grande escala. Pequena escala nos faz perder foco local. Mas as escalas não são apenas técnicas. Há escalas conceituais com abordagem multidimensional. Espaço concreto como espaço possível. Pequenas e grandes escalas são termos que foram objeto de forte escrutínio crítico, tanto na Geografia, como em outras Ciências Sociais. O esforço de detalhamento realizado pela etnografia na análise das relações de um universo simbólico não caracteriza seu localismo. Não há rede social, por mais extensiva que seja, que prescinda de conexões locais para fazê-la realizar-se enquanto rede global. A rede global não pode ser pressuposta para fins de pesquisa e de análise. Este procedimento a reifica contra sua historicidade. Em geral, as teorias da globalização prestam um desserviço ao esforço analítico do funcionamento do capitalismo contemporâneo. Associar o micro ao local e o macro ao global é uma forma de reducionismo que trai a dinâmica aberta das relações reais. Os antagonismos micro-macro e local-global traem as formas da diglossia que caracterizam os discursos estatais. Pesquisas recentes discutem que espaços coloniais funcionaram como campo de experimentação de modernidades. Dispositivos da modernidade foram "gestados" em vários casos nas colônias e depois transferidos para metrópoles. Em vez de centro-periferia, seria mais interessante falar de modernidades alternativas, como propõe Otávio Velho em vários textos. As novas ciências e as humanidades: da academia à política, de Pablo González Casanova, traduz essas questões de modo bastante instigante.
sexta-feira, 15 de março de 2013
Loucura como forma de percepção do fora.
"Madness is a form of perception alien to the community" (Benjamin).
Conhecimento exato
"O único conhecimento exato que existe é o do ano de publicação e o do formato dos livros" (Anatole France apud Benjamin).
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013
Escola de pensamento e Escola de atividades.
Para Howard Becker, a história da sociologia, em vez de se deter em esquemas abstratos, incidindo sobre questões teóricas gerais, desenvolve um rendimento analítico mais interessante quando pensa a história das práticas sociológicas focadas nos métodos de pesquisa e nas pesquisas efetivamente realizadas. Assim, ele propugna que a história da sociologia "não é a história da grande teoria, mas a dos grandes trabalhos de pesquisa, dos grandes estudos sobre a sociedade". Em vez de uma história das ideais gerais, uma história das práticas de pesquisa e de seus resultados. E, de modo complementar a esta perspectiva, a história das organizações nas quais sociólogos e antropólogos trabalharam juntos, agindo juntos e pensaram juntos questões de pesquisa, método e realização do sentido acadêmico do que fazem. Para além da história teórica, é preciso desenvolver uma história da prática de pesquisa e uma história das organizações que desenvolvem pesquisas. É neste campo de questões que o autor também problematiza a noção do que seja uma "escola", uma vez que, na palestra que ele realizou no PPGAS/MN, na qual estou me baseando para levantar esses pontos, o tema de sua conferência foi justamente: a Escola de Chicago (ver Mana 2(2): 177-188, 1996). A pergunta de partida para Becker sobre o significado da Escola de Chicago, como de qualquer outra escola sociológica, era: "o que é que eles [os autores que são identificados como fazendo parte da escola] faziam e o que caracterizava seu trabalho?". E é, justamente, a fim de enfrentar a tarefa de pensar a escolar a partir de seu fazer que Becker faz uma importante distinção que tem um impacto decisivo para o debate: existe uma diferença analítica entre uma escola de pensamento e uma escola de atividades. Baseado em Guillemard, Becker define a escola de pensamento como um fenômeno de percepção coletiva em torno da ideia de que autores nos mais diversos lugares pertenceriam a um modo semelhante de pensar, de levantar questões de pensamento, algo que poderíamos chamar de estilo de pensamento. Já uma escola de atividades diz respeito "a um conjunto de pessoas que trabalham em conjunto", não há necessidade de que todos se dediquem a um mesmo estilo de pensamento para que trabalhem juntos, nem mesmo que adotem um modelo teórico comum. No caso da Escola de Chicago, não há uma teoria que a identifica, há algumas ideias que são relativamente bem compartilhadas entre os pesquisadores que a compõe, mas não há uma escola de pensamento no sentido forte do termo. Goffman e Becker são os herdeiros mais proeminentes da Escola de Chicago, mas, entre eles, há diferenças em vários sentidos, mas, apesar das diferenças, ambos compartilham a ideia de que o self, a subjetividade e o modo como as pessoas respondem às outras em processos de interação social face a face são questões decisivas. Mesmo que Becker adote um situacionismo radical, onde a interação é pensada entre indivíduos, e Goffman, numa parte famosa de sua obra, sob influência de Durkheim, pense a interação social em torno de papéis que os indivíduos assumem, buscando uma perspectiva da teoria antropológica dos rituais. Esse é um pequeno exemplo de como entendi a provocação de Becker sobre o fato de que escola de pensamento e escola de atividades são duas formas de apreensão dessa oscilação histórica das escolas sociológicas. Se há uma Escola de Chicago hoje, ela não está localizada em Chicago, está pulverizada pelo mundo todo, inclusive no Brasil, na forma de "um modo de pensar, uma maneira de abordar problemas de pesquisa" (Becker).
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
O ilusório e o falso.
"En définitive, c'est toujours la société que se paie elle-même de la fausse monnaie de son rêve" (Marcel Mauss et H. Hubert. Esquisse d'une théorie générale de la magie, p.119). "Nada é mais difícil do que não nos iludirmos a nós próprios" (Wittgenstein). "Temos diferentes ideais de exatidão em diferentes épocas; e nenhum deles é superior" (Wittgenstein). "Diferentes interpretações devem corresponder a diferentes aplicações" (Wittgenstein).
Poder não é posse
"O poder e a posse não são a mesma coisa. Embora as coisas possuídas nos tragam também poder" (Wittgenstein).
Luta com a linguagem e topos guerreiro.
"Lutamos com a linguagem. Estamos envolvidos num luta com a linguagem" (Wittgenstein). Ou como escreveu Roland Barthes sob inspiração de Nietzsche: "estamos todos presos na verdade das linguagens, quer dizer, em sua regionalidade, arrastados pela formidável rivalidade que regula sua vizinhança. Pois cada falar (cada ficção) combate pela hegemonia; se tem por si o poder, estende-se por toda a parte no corrente e no quotidiano da vida social, torna-se doxa, natureza: é o falar pretensamente apolítico dos homens políticos, dos agentes do Estado, é o da imprensa, do rádio, da televisão; é o da conversação; mas mesmo fora do poder, contra ele, a rivalidade renasce, os falantes se fracionam, lutam entre si. Uma impiedosa tópica regula a vida da linguagem; a linguagem vem sempre de algum lugar, é topos guerreiro" (Barthes).
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