quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Ilusão, lembrança e invenção

A ilusão não é uma mentira, podendo-se apoiar nela, a ilusão não é falsa, podendo-se apoiar em informações falsas, a ilusão não é uma falácia, podendo-se apoiar em modos fantasiosos de concreção. Aprendi isso com o Freud, com a ajuda de Mezan, é claro. A ilusão, de um futuro, não é sem consequências. As consequências são sérias, e graves. O ato de rememorar dificilmente se dissocia do ato de inventar. O modo como memória e imaginação se entrecruzam na estrutura de um relato são duas dimensões decisivas para a análise dele. E como propõe Arendt, pode-se aprender com o passado, mas isso não oferece conhecimento sobre o futuro.

Pessoa em fluxo

O real passa por uma variação empírica contínua. Dar forma a esse fluxo é uma atividade que produz algo. Formas muito rígidas matam o fluxo e levam à morte cultural, daí a importância das variações de sujeito. Melhor sujeitos variados do que sujeitos avariados pela falta de flex no flux.

Possibilidades de poder

As conexões entre condições de poder e possibilidades de poder têm como fiel da balança a expressão maior ou menor de uma ambição de poder, que se expressa ou não com afinco e intensidade, e os atores sociais são julgados pela maior ou menor adesão a essa ambição. Pode-se ser punido por dispor de possibilidade de poder sem ambicionar o poder, por exemplo (inspirado em Arendt). Fazer da "associação íntima com os privilegiados", para usar uma expressão da autora, para construir caminhos de triunfo social é uma das possibilidades de observação dessa maior ou menor ambição. O desejo de acreditar é uma máquina muito perigosa, pois eficiente, quando investida nas atividades políticas de proteção do capital e sua lucratividade. O desejo de acreditar está usualmente em função de uma transferência de descrédito a certas categorias de pessoas, que postas à parte, reforçam a convicção dos convictos que operam a segregação, ou seja, os delírios dos chauvinistas, alimentados pelos mais diversos sentimentos de inferioridade social.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Seres pensantes (entre Foucault e Bourdieu), uma troca.

O saber não é um atributo exclusivo de uma categoria de pessoas. Todas as pessoas, sem exceção, são seres pensantes. As forças da inteligência costumam estar associadas às forças da ordem social. Usar o critério da inteligência, como se ela fosse uma instância pura e imaculada, pairando sobre o espaço social, é uma das formas pela qual se exerce o racismo da inteligência, baseado numa distribuição desigual de acessos, politicamente orientada pelos segmentos dominantes com o apoio da maioria dos trabalhadores intelectuais. A ideia de que todos os seres são pensantes pode ser usada politicamente de um modo reacionário ou de um modo libertário. É preciso aprender sobre os dois usos disso. Essa é a grande armadilha, uma vez que "...a razão encerra a virtualidade de um abuso de poder" (Pierre Bourdieu).

Homo sapiens

Nietzsche traduzia como filólogo homo sapiens como aquele que saboreia, que degusta, que distingue. Sapiens é o degustador. Esta é um questão a ser levada muito a sério, a relação saber e sabor, foi de Nietzsche que Barthes pegou essa ideia e a desenvolveu de um modo próprio, foi também de Nietzsche que Simmel, segundo quem o ser humano é quem procura, Foucault com a ideia de seres pensantes, e muitos outros: "sapio, eu saboreio, sapiens, o degustador, sisyphos, o homem do gosto mais apurado" (Nietzsche).

Ressentimentos de Bourdieu.

É impressionante a força negativa da antipatia e do ressentimento com que Pierre Bourdieu ataca a condição do adolescente burguês que lhe foi negada na vida social. Esta negatividade da condição burguesa dos adolescentes com os quais ele precisou competir em torno do êxito escolar e de suas implicações e ganhos simbólicos ocupa um lugar decisivo no edifício de sua obra sociológica. Não se trata de reducionismo, é um tema problematizado por ele em diversos textos, explicitado com todo desespero analítico. A meu ver, faltou a Bourdieu, ao Bourdieu jovem, uma aprendizagem fundamental. Nós que não tivemos o privilégio de uma condição burguesa de adolescente não temos como única alternativa nos tornarmos um CDF ressentido, marcado pelo ódio de si, em permanente luto pela condição desabonadora da pobreza e sofrimento social. Há uma outra alternativa, tornar-se um vagabundo estudioso, um pândego, um anarquista (o próprio pai de Bourdieu era anarquista, mas a mãe impôs a disciplina de uma respeitabilidade perdida). Em vez da brutalidade, há também a poesia nas ruas e a alegria de pobre (namorar e fazer amor). Parece que Bourdieu foi muito infeliz. (E todas as palavras aqui são uma hermenêutica, são trechos da escrita dele, não são de fora para dentro). É que estou preparando aula para o mestrado, teoria sociológica contemporânea. Nas releituras que estou fazendo de partes da obra de Bourdieu, outro lance que está me chamando muito a atenção é o seguinte. Algo que eu nunca tinha percebido. Bourdieu usa recorrentemente, quando se trata de definir a tarefa sociológica de objetivação do "sujeito", os termos "brutal", "perverso", "cruel", referindo-se ao tipo de investimento que ele realiza como sociólogo. Ele está em vários trechos definindo a si mesmo e a sociologia como uma prática de brutalidade (a brutalidade da objetivação), de perversidade (maldade contra os que se acham puros e superiores, vingança, ressentimento) e crueldade (contra os que resistem a ser tratados como objetos). É toda uma linguagem imersa no mais tenso controle racional de uma emocionalidade à flor da pele. E quando ele escreve sobre a motivação escondida de sua desesperada dedicação ao trabalho de pesquisa, ele o faz com as seguintes palavras sobre os investimentos pulsionais dele no campo da pesquisa, motivado "pela desolação íntima do luto solitário: o trabalho desatinado era ainda a maneira de preencher um vazio imenso e de livrar-se do desespero ao demonstrar interesse pelos outros; o abandono dos píncaros da filosofia pela miséria da favela era, pois, uma espécie de expiação sacrificial de meus irrealismos adolescentes. (...) E tudo (...) mascara, portanto, a pulsão subterrânea e a intenção secreta que constituíam a face oculta de uma vida dilacerada" (Pierre Bourdieu).

A luta política e as ciências sociais.

Cientistas sociais precisamos "escolher entre dois partidos: posicionar seus instrumentos racionais de conhecimento a serviço de uma dominação cada vez mais racionalizada, ou, então, analisar racionalmente a dominação, em especial a contribuição do conhecimento racional para a monopolização de fato dos ganhos da razão universal" (Pierre Bourdieu). A luta política, portanto, é contra a "monopolização do universal", de um lado, e "em prol da universalização das condições de acesso ao universal", do outro. Meditações Pascalianas.