sábado, 24 de junho de 2017

Sentidos da errância e errância sem sentido

Erramos em dois sentidos. Erramos como seres errantes, que se deslocam na variação empírica contínua de si mesmos, e erramos como seres de percepção, que fazem da totalização o princípio do conhecimento dos outros. Dois erros. Duas formas de errância: a corporal, pela destruição do corpo que a fixidez impõe, e a cognitivo-moral, pela categorização que tudo julga de modo agressivo contra as diferenças.

A tarefa da crítica

A tarefa da crítica é minar quaisquer alicerces do sistema de dominação, é gerar descrença, produzindo saber baseado na certeza da incerteza como condição insuperável do humano. É a partir do niilismo que se faz a superação do niilismo.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Teoria é também política.

Para quem ainda não leu Contrafogos, de Pierre Bourdieu, fica a dica, pois representa o modo como um dos mais importantes teóricos das ciências sociais faz da teoria uma prática crítica dos discursos neoliberais que investem contra as coletividades e seus direitos. Uma leitura imprescindível para esse momento, pois muitas das estratégias usadas na França e que são analisadas criticamente por Bourdieu estão sendo usadas aqui no BR no atual contexto. Teoria é também política.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Teoria do enquadramento.

O modo como Judith Butler, apoiando-se em Goffman e Derrida, repensa a teoria sociológica dos enquadramentos é uma das contribuições mais interessantes no universo dos debates contemporâneos. No próximo semestre, vou ministrar a disciplina Tópicos Avançados em Teoria Sociológica, para o doutorado, vou trabalhar com Bourdieu e Giddens. Mas de um próxima vez, pretendo discutir Foucault, Honneth e Butler. Essa movimentação teórica, incluindo Arendt, Elias, Habermas, Adorno, Sennett, Bauman, Goffman, Becker, Agamben, tornou-se o caldo a partir do qual podemos fazer apropriações críticas que desloquem num sentido pós-colonial, pós-social e pós-feminista o sentido da reflexão teórica desde o sul. Butler me parece conduzir muito bem essa tarefa de crítica e deslocamento.

Retomada da questão do parentesco.

O texto que publiquei em 2015 sobre a questão do poder na antropologia foi um modo de preparar o terreno para as novas questões. Afinal, é a partir das considerações da antropologia sobre família e parentesco que se pode problematizar o modo como as relações de poder são inerentes ao universo das relações sociais.

Liberdade, justiça e metafísica.

Quando se luta por liberdade, justiça ou igualdade, há sempre o risco de impor uma metafísica com tais significantes. Afinal, liberdade, justiça e igualdade estão também encarnados em regimes históricos concretos com suas normatividades sociais estabelecidas. Laclau e Mouffe sugerem que tratemos tais termos como significantes vazios. A luta por hegemonia é a luta pela significação histórica concreta em torno de tais significantes, que são sempre flutuantes e ambíguos, pois estão em disputa.

O sujeito livre

Adoraria um dia poder fazer uma anarcogenealogia do sujeito livre que nasceu não livre. O tema da liberdade é o tema por excelência que diz respeito ao despertar de um corpo que não está fechado em suas condições de produção. A defasagem entre a sujeição e a recusa ativa da identidade social atribuída como forma de subjetivação pelos enquadramentos da normatividade social existente é a condição da conquista da liberdade, mas não uma condição suficiente. Mas há um problema seríssimo em toda a abordagem de Foucault. Ela não permite discursos que totalizam. Foucault é um filósofo da dispersão. Para alguns, isso é um xingamento, para outros, um elogio. Eis o problema. "Não é, pois, o poder mas o sujeito que constitui o tema geral de minhas pesquisas" (Michel Foucault).