quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O problema da alto performance

Numa sociedade dividida em classes, o alto desempenho está capturado pela máquina de produzir desigualdades de capital, portanto, torna-se objeto de ressentimentos e raivas. É extremamente complexo manter a tradição do artesão (buscar fazer o melhor, buscar fazer algo com a melhor qualidade possível) num contexto de capitalização informacional e do conhecimento. Buscar fazer o melhor vira um título de capitalização. E nem sempre é a mercadoria mais valiosa no contexto dos mercados informacionais. O alto desempenho exige alto capital. Mas as condições desiguais de distribuição do capital restringem consideravelmente as chances do alto desempenho ser aberto ao talento, como defende a ideologia liberal e da meritocracia. Mas, por outro lado, não exigir alto desempenho dos quadros em formação, pois isso é fazer o jogo do capital, é esquecer que as tradições de artesanato são riquezas comuns das classes trabalhadoras. Numa sociedade de contradições, a ambivalência estrutural é permanente.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Ansiedades de absoluto entre intelectuais

Uma atitude de desespero diante do nada tem levado muitos acadêmicos a desejar um retorno ao universalismo a qualquer custo, como se o universalismo a qualquer custo não fosse a principal fonte de problemas. Desejos de universalidade para obter critérios de segurança. A ansiedade de absoluto é o sintoma mais drástico da falência dos órgãos do pensar.

sábado, 24 de junho de 2017

Sentidos da errância e errância sem sentido

Erramos em dois sentidos. Erramos como seres errantes, que se deslocam na variação empírica contínua de si mesmos, e erramos como seres de percepção, que fazem da totalização o princípio do conhecimento dos outros. Dois erros. Duas formas de errância: a corporal, pela destruição do corpo que a fixidez impõe, e a cognitivo-moral, pela categorização que tudo julga de modo agressivo contra as diferenças.

A tarefa da crítica

A tarefa da crítica é minar quaisquer alicerces do sistema de dominação, é gerar descrença, produzindo saber baseado na certeza da incerteza como condição insuperável do humano. É a partir do niilismo que se faz a superação do niilismo.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Teoria é também política.

Para quem ainda não leu Contrafogos, de Pierre Bourdieu, fica a dica, pois representa o modo como um dos mais importantes teóricos das ciências sociais faz da teoria uma prática crítica dos discursos neoliberais que investem contra as coletividades e seus direitos. Uma leitura imprescindível para esse momento, pois muitas das estratégias usadas na França e que são analisadas criticamente por Bourdieu estão sendo usadas aqui no BR no atual contexto. Teoria é também política.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Teoria do enquadramento.

O modo como Judith Butler, apoiando-se em Goffman e Derrida, repensa a teoria sociológica dos enquadramentos é uma das contribuições mais interessantes no universo dos debates contemporâneos. No próximo semestre, vou ministrar a disciplina Tópicos Avançados em Teoria Sociológica, para o doutorado, vou trabalhar com Bourdieu e Giddens. Mas de um próxima vez, pretendo discutir Foucault, Honneth e Butler. Essa movimentação teórica, incluindo Arendt, Elias, Habermas, Adorno, Sennett, Bauman, Goffman, Becker, Agamben, tornou-se o caldo a partir do qual podemos fazer apropriações críticas que desloquem num sentido pós-colonial, pós-social e pós-feminista o sentido da reflexão teórica desde o sul. Butler me parece conduzir muito bem essa tarefa de crítica e deslocamento.

Retomada da questão do parentesco.

O texto que publiquei em 2015 sobre a questão do poder na antropologia foi um modo de preparar o terreno para as novas questões. Afinal, é a partir das considerações da antropologia sobre família e parentesco que se pode problematizar o modo como as relações de poder são inerentes ao universo das relações sociais.